A Rendição

Buddha Shakyamuni – Mosteiro Zen Morro da Vargem
白雲山禅光寺
Hakuunzan Zenkoji
Monte da Nuvem Branca – Templo da Luz do Zen https://mosteirozen.com.br

Não há saída! 

                     [E não é porque não restam alternativas]

Sempre foi, sempre esteve aqui. 

Não há mais nenhuma saída!

                     [O cerco se fechou]

Não há para onde ir. 

Não há saída!

[Há o que sempre existiu

Aqui, onde não há dentro e nem fora]

Não há mais saída!

Há sim o verdadeiro propósito

[A existência diluída].

Há sim, uma porta que abre:

                    [A porta que abre e fecha 

                     A porta do ar que entra e sai

                     A porta de ser e de estar]

*** Há somente um momento presente 

     Na vida futura

     No passado que mostra 

     De onde nunca saiu***

Não há saída! 

Num ciclo infinito 

De quem sonha dormindo

Para sempre um pecado 

[Dualidade

Separação]

Relembra a 

Unidade

[Na outra margem do rio]. 

Não há mais saída!

Há, sim, a grande travessia.

De um lado o familiar 

Do outro, o mistério.

Não há saída, não há! 

Todo lugar é onde devo estar 

Onde não há saída. 

[É quando acontece 

          .

          .

                                  .

                                  .

                                  a rendição]

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Outono Encantado

Na vida de todos os dias, feita de luzes e sombras, percebo a existência de seres “invisíveis” ao sair para a rua e me deparar com a beleza disfarçada em sua expressão, apontando para a lua, e que já foi declaradamente dada como morta;

Na vida de todos os dias, feita de algo bom e ruim, percebo a relatividade das manifestações, ao sair para a rua e me encantar com a frondosa, alegre e atraente aos olhos daqueles que sabem ver, indicando para o além do além, para além do óbvio dos olhos físicos, para onde sempre existe o possível;

Na vida de todos os dias, feita de dentro e de fora, percebo a unidade ao sair para a rua e me reencontrar com ela, que me ensina a grandeza do que é simples, do que é livre de obstáculos, do que é ignorado, invisibilizado, esquecido, mostrando para mim inúmeras razões para agradecer o caminho encontrado.

Nesta vida cotidiana, o alento vívido e presente, onde piso, no momento a momento, sempre seguindo, tomando como exemplo a naturalidade da existência dela, sempre ela, que me mostra o movimento constante, as transformações incessantes, a continuidade inerente a tudo o que existe, sem obstáculos, sem obstáculos entre corpo e mente, entre longe e perto, entre claro ou escuro, entre eu e ela.

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OS ESTATUTOS DO HOMEM (Ato Institucional Permanente)

Thiago de Mello (1926 – 2022)

Descanse em Paz

Artigo Primeiro

Fica decretado que agora vale a verdade. Agora vale a vida, e de mãos dadas, marcharemos todos pela vida verdadeira. 

Artigo Segundo 

Fica decretado que todos os dias da semana,  inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm direito a converter-se em manhãs de domingo. 

Artigo Terceiro 

Fica decretado que, a partir deste instante, haverá girassóis em todas as janelas, que os girassóis terão direito  a abrir-se dentro da sombra; e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro, abertas para o verde onde cresce a esperança. 

Artigo Quarto 

Fica decretado que o homem não precisará nunca mais duvidar do homem. Que o homem confiará no homem como a palmeira confia no vento, como o vento confia no ar, como o ar confia no campo azul do céu. 

Parágrafo único

O homem, confiará no homem como um menino confia em outro menino. 

Artigo Quinto

Fica decretado que os homens estão livres do jugo da mentira. Nunca mais será preciso usar a couraça do silêncio nem a armadura de palavras. O homem se sentará à mesa com seu olhar limpo porque a verdade passará a ser servida antes da sobremesa.

Artigo Sexto 

Fica decretado que a maior dor sempre foi e será sempre não poder dar-se amor a quem se ama e saber que é a água que dá à planta o milagre da flor. 

Artigo Sétimo 

Fica permitido que o pão de cada dia tenha no homem o sinal de seu suor. 
Mas que sobretudo tenha  sempre o quente sabor da ternura. 

Artigo Oitavo 

Fica permitido a qualquer  pessoa, qualquer hora da vida, uso do traje branco. 

Artigo  Nono 

Fica decretado, por definição, que o homem é um animal que ama e que por isso é belo, muito mais belo que a estrela da manhã.  

Artigo Décimo

Decreta-se que nada será obrigado nem proibido, tudo será permitido, inclusive brincar com os rinocerontes e caminhar pelas tardes com uma imensa begônia na lapela. 

Parágrafo único 

Só uma coisa fica proibida: amar sem amor. 

 Artigo Décimo Primeiro 

Fica decretado que o dinheiro não poderá nunca mais compra o sol das manhãs vindouras. Expulso do grande baú do medo, o dinheiro se transformará em uma espada fraternal para defender o direito de cantar e a festa do dia que chegou. 

Artigo Final

Fica proibido o uso da palavra liberdade, a qual será suprimida dos dicionários e do pântano enganoso  e das bocas. A partir deste instante a liberdade será algo vivo e transparente como um fogo ou um rio, e a sua morada será sempre o coração do homem. 

(Santiago do Chile, abril de 1964 dedicado a Carlos Heitor Cony )
  

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Entre Lua e Estrelas

No campo das mutações

[impermanência]

Na dimensão metafísica do tempo

[unidade cíclica]

Adentrando o vazio interior

[plenitude]

Um vir a ser

[Infinitas possibilidades].

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Portas I

Alcançando o topo da montanha, de onde se pode avistar o mar: Paranapiacaba.
Com os meus amados parceiros de jornada.

A montanha por achar [Fernando Pessoa]

A montanha por achar

Há-de ter, quando a encontrar,

Um templo aberto na pedra

Da encosta onde nada medra.

O santuário que tiver,

Quando o encontrar, há-de ser

Na montanha procurada

E na gruta ali achada.

A verdade, se ela existe,

Ver-se-á que só consiste

Na procura da verdade,

Porque a vida é só metade.

21-9-1934

Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990): 171.

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Earth & Sky III

Listening to the everyday life during the pandemic in Santo André, São Paulo, Brazil, Autumn 2021.

Suniai

Spiritual beings in their perfection

In everyday life;

From the window

Branches and leaves point the direction,

Celebrate light in darkness.

Suniai 

Like heroic warriors

Rooting,

Contentment,

Thoughts,

Middle path,

Integrity.

Suniai

From where you can see the sea,

Oceans, mountains, people from all over the world

And nether regions of the underworld;

When death can’t touch you,

When devotees are forever in bliss,

When pain and sins are erased.

Suniai

When the Earth can sustain and can be

Support to the Sky,

and its Akashic Records,

Universal life,

its Ancestrality,

Atavism.

Anima Mundi

….

Text inspired by Japji’s 8th pauri, entitled Suniai, wrote by Guru Nanak, in the Sikh tradition.

*Suniai, in Gurmukhi, means listening to the subtle inner silence.

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Alento

A vida de todos os dias: o amanhecer em Santo André, São Paulo, Brazil. 2020.

O projeto “Alento” é uma série sobre (re)descobertas na vida cotidiana na cidade, iniciadas durante a quarentena vivenciada no Brasil desde Março de 2020, devido à pandemia do novo Coronavírus, quando a percepção das dimensões ‘tempo-espaço’ se transformaram paradoxalmente. 

Num contexto de “cortes” e “limitações” que foram impostos brutalmente, um novo campo dos sentidos se abriu, revelando a fluidez inerente à metamorfose sobre o todo manifestado. Trata-se da inexorabilidade de um processo contínuo existente na naturalidade entre inspirar e expirar. Falo de algo semelhante a um “sopro” renovado.

Deslocamentos físicos recorrentes, como percorrer uma diversidade de espaços públicos, além de realizar viagens entre cidades e atravessar o Atlântico com frequência nos últimos anos, se tornaram, de repente, restritos às “reais” necessidades e reconsideração dos recursos materiais. Assim, os “mesmos” cenários e caminhos aos quais me vejo “reduzida” a vivenciar no dia a dia, tem recebido novos significados. Em paralelo, percebo que o tempo se reconfigurou sob um novo ritmo. O tempo, antes arrastado, de repente, parece estar acelerado, numa expansão mental contrastante com a limitação espacial do deslocamento do meu corpo. 

O fio condutor de experiências através da abertura da janela de meu quarto a cada dia, é tecido pela malha fina que compõe a complexidade da vida de todos os dias, e que está escondida sob a monotonia opressora que marca a temporalidade regida pelo relógio, sob o aprisionamento de um ser que clama por autonomia. Tudo numa nova condição espacial e temporal, provocada, inicialmente, pela pandemia. 

O cotidiano continua marcado pela opressão que molda o corpo e a alma; que molda o olhar e o sentir; que molda os sons que entram não apenas pelos ouvidos e que nos deixam surdos para o que existe no mundo, para muito além do concreto marcado pela perversidade das desigualdades sociais e pelo excesso de ruídos de veículos motorizados na cidade. Uma opressão que nos cega para a vida configurada dia após dia e que, com a pandemia, como num gesto de completa liberação e retorno à essência, recobrei a capacidade de respirar (conscientemente) e o meu movimento finalmente voltou a fluir e a me conduzir para um vislumbre da beleza permanente e contida nas dimensões elementares e atemporais entre os quais transitamos ciclicamente todos os dias.

Trata-se, portanto, da (re)abertura de um espaço Maior – a partir do menor – de dentro para fora, que transcende o que é cotidiano, trivial, maçante, ideológico, e que encontra – para muito além da alienação – um vazio onde é possível, através da extensão do próprio corpo, desdobrar, revelar, respirar!

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Earth and Sky II

Border

Border area between Greece and North Macedonia.  July, 2019.


Separation ~ mental projection
In between ~ abysmal
Hope ~ connection
Union ~ perennial

Text inspired on my running experience between Greece and North Macedonia, where it was not allowed to continue because of strict rules at border control (from North Macedonia side)

*Running with my beloved Geert.

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Earth and Sky I


Drawing almost always the same red lines 

with my body on the overlaid ground

in connection with the Cosmos: following the direction of the stars.

In a connection between land and sky;

in another scale;

in a small physical distance: I feel able to run a long journey with my suspended heart.

[And what happens?]

I just unfold a hidden layer from the essence of life. 


P.S. It is about my own experience of running 6 miles along 3 months practically at the same place, 4 times per week , during the quarantine in Brazil, 2020.
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Gratitude for Life

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I am grateful for wake up each day.

I am grateful for the sensation of running, drawing with my body a heart pulsing on the ground: mine and of the Earth like One.

I feel under my feet the ancestors existence and of all forms of life;

I feel the same air in the air as those who once breathed there;

I feel a continuous flow, each moment intertwined, entangled, connected in a mesh woven by invisible threads among all beings in the Cosmos.

I am grateful for all this.

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