Alento

A vida de todos os dias: o amanhecer em Santo André, São Paulo, Brazil. 2020.

O projeto “Alento” é uma série sobre (re)descobertas na vida cotidiana na cidade, iniciadas durante a quarentena vivenciada no Brasil desde Março de 2020, devido à pandemia do novo Coronavírus, quando a percepção das dimensões ‘tempo-espaço’ se transformaram paradoxalmente. 

Num contexto de “cortes” e “limitações” que foram impostos brutalmente, um novo campo dos sentidos se abriu, revelando a fluidez inerente à metamorfose sobre o todo manifestado. Trata-se da inexorabilidade de um processo contínuo existente na naturalidade entre inspirar e expirar. Falo de algo semelhante a um “sopro” renovado.

Deslocamentos físicos recorrentes, como percorrer uma diversidade de espaços públicos, além de realizar viagens entre cidades e atravessar o Atlântico com frequência nos últimos anos, se tornaram, de repente, restritos às “reais” necessidades e reconsideração dos recursos materiais. Assim, os “mesmos” cenários e caminhos aos quais me vejo “reduzida” a vivenciar no dia a dia, tem recebido novos significados. Em paralelo, percebo que o tempo se reconfigurou sob um novo ritmo. O tempo, antes arrastado, de repente, parece estar acelerado, numa expansão mental contrastante com a limitação espacial do deslocamento do meu corpo. 

O fio condutor de experiências através da abertura da janela de meu quarto a cada dia, é tecido pela malha fina que compõe a complexidade da vida de todos os dias, e que está escondida sob a monotonia opressora que marca a temporalidade regida pelo relógio, sob o aprisionamento de um ser que clama por autonomia. Tudo numa nova condição espacial e temporal, provocada, inicialmente, pela pandemia. 

O cotidiano continua marcado pela opressão que molda o corpo e a alma; que molda o olhar e o sentir; que molda os sons que entram não apenas pelos ouvidos e que nos deixam surdos para o que existe no mundo, para muito além do concreto marcado pela perversidade das desigualdades sociais e pelo excesso de ruídos de veículos motorizados na cidade. Uma opressão que nos cega para a vida configurada dia após dia e que, com a pandemia, como num gesto de completa liberação e retorno à essência, recobrei a capacidade de respirar (conscientemente) e o meu movimento finalmente voltou a fluir e a me conduzir para um vislumbre da beleza permanente e contida nas dimensões elementares e atemporais entre os quais transitamos ciclicamente todos os dias.

Trata-se, portanto, da (re)abertura de um espaço Maior – a partir do menor – de dentro para fora, que transcende o que é cotidiano, trivial, maçante, ideológico, e que encontra – para muito além da alienação – um vazio onde é possível, através da extensão do próprio corpo, desdobrar, revelar, respirar!

Para este projeto, conto com a utilização de algumas ferramentas para registrar e ilustrar as experiências vivenciadas na vida cotidiana numa cidade na qual, nos últimos 8 meses, não me desloco mais do que num raio de 4km a partir de onde eu moro. As experiências são de caminhada e de corrida, quando capturo sons e imagens muitas vezes sem planejar, estando à deriva sobre trajetos ou intenções. Até o momento, tenho utilizado Hush City app, Garmin Connect e software livre de geoprocessamento QGis.

Com o tempo, percebi que “colecionei” percursos, luzes, sombras, sons, silêncio, ruídos, texturas e muitos sentimentos que me afetam, de uma maneira ou de outra e que tem me transformado naquilo que parece ser essencial para se viver, independente de pandemia, pois sempre esteve ali, que é perene e intransmutável, num núcleo onde o corpo e a alma assentam, mesmo dentro daquilo que, inexoravelmente, muda o tempo todo. 

Para o próximo ano, está previsto, por um lado, o desenvolvimento deste projeto independente mais abrangente e, por outro lado, há um recorte, com ênfase no tema “saúde acústica e planejamento urbano” em meu trabalho como socióloga na Prefeitura de Santo André, em colaboração com Hush City app, com mapeamento de áreas tranquilas na cidade, e com ProAcústica, organização não governamental sediada em Sao Paulo e que atua na promoção de qualidade acústica nas cidades.  Em paralelo, o projeto será também desenvolvido, com as devidas adequações, junto a um programa de Doutorado em Saúde Pública, por meio de parcerias e compartilhamento de recursos e de conhecimentos, como proposta de Política Pública voltada para a promoção de saúde física e  mental de coletividades, num mundo em processo de reconfiguração durante e pós-pandemia. 

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Earth and Sky II

Border

Border area between Greece and North Macedonia.  July, 2019.


Separation ~ mental projection
In between ~ abysmal
Hope ~ connection
Union ~ perennial

Text inspired on my running experience between Greece and North Macedonia, where it was not allowed to continue because of strict rules at border control (from North Macedonia side)

*Running with my beloved Geert.

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Earth and Sky I


Drawing almost always the same red lines 

with my body on the overlaid ground

in connection with the Cosmos: following the direction of the stars.

In a connection between land and sky;

in another scale;

in a small physical distance: I feel able to run a long journey with my suspended mind.

[And what happens?]

I just unfold a hidden layer from the essence of life. 


P.S. It is about my own experience of running 6 miles along 3 months practically at the same place, 4 times per week , during the quarantine in Brazil, 2020.
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Gratitude for Life

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I am grateful for wake up each day.

I am grateful for the sensation of running, drawing with my body a heart pulsing on the ground: mine and of the Earth like One.

I feel under my feet the ancestors existence and of all forms of life;

I feel the same air in the air as those who once breathed there;

I feel a continuous flow, each moment intertwined, entangled, connected in a mesh woven by invisible threads among all beings in the Cosmos.

I am grateful for all this.

*Sharing my Gratitude to the Earth

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Unidade Cíclica

Tao


Na busca do conhecimento, todos os dias algo é adquirido,
Na busca do tao, todos os dias algo é deixado para trás.

E cada vez menos é feito
até se atingir a perfeita não-ação.
Quando nada é feito, nada fica por fazer.

Domina-se o mundo deixando as coisas seguirem o seu curso.
E não interferindo.

Tao Te Ching (道德經), Cap. 48


Quando se vive sem sentir que há começo, meio ou fim, 

é um viver cíclico, como os antigos concebiam o tempo. 

A história que parece confusa, é então, difusa

numa trama de fios de seda, finos finos finos.

[que sacrificam mariposas 

que furam os olhos da serpente 

que decapitam a bela que sorri e sente]

Viver num horário definido por uma lógica inventada 

interferindo nas leis da natureza. 

Uma hora aqui, cinco horas a mais ali

como se dá, então, a realidade?

[se lá já aconteceu, aqui ainda começa o dia 

e lá já é meio dia, aqui é ainda café da manhã

sobre as nuvens, sob as estrelas e planetas e o Sol que brilha]

Existo por qual motivo? 

Milagre manifesto, benção de deuses?

O Céu, a Terra, as Montanhas, os Lagos, os Ventos, os Trovões, o Tempo:

Entre uma coisa e outra, existo. 

Transito entre; na constância de.

Coração pulsa, sangue vibra, lágrimas brotam. 

[E é apenas mais um novo e surpreendente dia]

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Unity

Pausa on my morning run in Londrina, 2019.


When you live without feeling that there is a beginning, middle or end,

it is a cyclical living, as the ancients conceived of time.

The story that seems confusing is, then, diffuse,

in a web of silk thread, fine thin fine.

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Listening with the feet

 

Prespes, Florina, Greece – July, 2019.


The practice of writing, so vivid long ago,

Today, asleep.

Attempts in vain, even in Portuguese!

The tongue curled.

English? French?

Nothing, nothing.

But, then, what was left for me?

There was silence – and the ears opened!

Extended listening in an augmented reality,

Attentive and dazzled.

In the “Wild Dream” of Prespes.

[Seeing with my ears,

Walking on the waters,

Listenting to the ground,

Crossing a triple border].

I create my own language…


 

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Steps & Consciousness

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My training of today, Londrina, Paraná, Brazil.


A gap between my last writing and my return to the daydreams around the experience of running to beyond physical activity.

After a sabbatical year, recovering from a foot injury, I return to training for a new marathon, with a new body and a new focus.

I bring within me the foundations of the first texts, but with a march less in each step … slow pace, careful redoubled, to continue to run, without limits, step by step, in a mismatch of the frantic life of my day to day.

In the slowness of my movement, I still bring the practice of yoga, tai chi, conscious breaths. I perceive the environment around me more clearly, making my running become a rediscovery of life itself.

In an autobiographical sense, I retake my traces, replay the videos, silence and sounds of Chris Lynn and other inspirational sources as a way to extravasate what exists in a body with an affected sensitivity, that moves from one side to another, in a direction random, running adrift, discovering the path precisely … at every conscious step.

*I am training for my 6th Marathon, in June, Porto Alegre, Brazil. 

 

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Possibilities

Ikaria, Greece. June, 2018.


From very far away, the waves invade foreign territories, talking among themselves:

– What’s beyond the sea?
– The existence does not accept borders. The sky is always the same sky. And the waters, the same waters.

The sky is always available for the slight movement of a flight,
just as the waters are always open for gentle movement on the high seas.
There is no contentment with a little;
only with the vastness and the unknown.

[A little is for the little ones – then, small is your joy, small is your being].

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Amor Obsoleto

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René Magritte. The Lovers. Paris, 1928. MoMA


Através de sua alma – especialmente a sua alma, que me serve de espelho – eu enxergo tudo aquilo que eu não quero ser – mas que sou por inteiro.
Através de sua alma eu reconheço o imenso orgulho que carrego junto à minha arrogância, raiva e ignorância sem limites e enxergo, assim, o retrato fiel daquilo que eu mais desprezo.
Através de sua alma – a qual conheci em pleno trânsito de Saturno me trazendo o peso do tempo, da disciplina, da escassez, decrepitude e cortes – eu busco transcender o meu corpo, alcançar as esferas mais elevadas da minha rasa existência, da minha absoluta insignificância frente à vastidão do Cosmos, da perspectiva celestial, das inesgotáveis dimensões ainda não descobertas.
Através de sua nobre alma eu vejo para além dos meus míopes olhos físicos, eu me inspiro, me torno criativa, expansiva, atrevida e mergulho da escuridão profunda do oceano sem medo e sem hesitação.
Através de sua alma eu me volto para dentro de mim mesma, enxergo ainda mais o mais puro amor que reside aqui no meu ser, sinto o amor infinito por mim, por você, por todas as formas de vida do Universo.
Através de sua alma eu reconheço desejos antes inconcebíveis, reconheço o meu corpo, a minha bela alma e também os meus segredos mais secretos.
Através de sua alma eu vislumbro ainda – AINDA! – uma vista ampliada de um horizonte ilimitado, onde a megalomania se transforma, assim, naturalmente, em uma simples forma de vida, ao seu lado.

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